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VICIADOS EM SOFRER

Em entrevista à revista Época, à jornalista Paula Mageste, publicada em 20 de janeiro de 2003, nº 244, o psicólogo Vicente Parizi alertou-a para a co-dependência, o mal das pessoas que só sabem viver relacionamentos doentios.

Pense duas vezes antes de seguir os conselhos daquele amigo que fica mais próximo quando você está mal. Fique atento quando deitar no divã daquele analista que não faz cerimônia e diz como você deve agir. Seja menos condescendente com sua mãe, sempre pronta a fazer sacrifícios voluntários por você. Cartão vermelho para o marido que realiza todos os desejos da mulher, antes mesmo que ela os tenha. Esses comportamentos, que nos parecem tão familiares e generosos, podem ser exemplares de um dos males menos divulgados de nossa sociedade, fonte de grande sofrimento para uma parcela considerável da população – a co-dependência. O termo, pouco conhecido, define a síndrome das pessoas que só sabem estabelecer relacionamentos baseados em problemas.

No Brasil, grupos de Co-dependentes Anônimos (Coda) já existem em vários Estados. O Coda surgiu aqui há cerca de uma década, trazido dos Estados Unidos. Apareceu como um filhote de outros grupos de 12 passos, que reuniam familiares de dependentes de drogas e álcool. Logo vieram outros co-dependentes, cujas histórias de dor não tinham a ver com vício, mas com a natureza doentia das relações que viviam. Um dos primeiros psicólogos a tratar a co-dependência no Brasil, Vicente Parizi falou a ÉPOCA.

 

ÉPOCA – O que é um co-dependente?

Vicente Parizi - É a pessoa que desenvolve relações baseadas em problemas. São relações pouco saudáveis, em todas as esferas. O foco está sempre no outro e o vínculo não é o amor ou a amizade, mas a doença, o poder, o controle. No fundo, o co-dependente acredita que pode mudar os outros e seus relacionamentos são criados não com a perspectiva de respeitar as pessoas, mas de ensinar o que acredita ser melhor para elas. O co-dependente é motivado pelo desejo de transformar o outro – e mandar nele.

 

ÉPOCA –  Pode dar um exemplo?

Parizi – Um caso clássico é o da mulher que casa com um alcoólatra, segura de que pode ajudá-lo a parar de beber. Só que ele só vai parar se ele próprio quiser. Essa mulher entra nesse casamento porque provavelmente tem um histórico que a torna dependente da “adrenalina” que experimenta na relação. Ela melhora sua autoestima sentindo-se necessária para o marido. Ele, por sua vez, nunca vai se livrar do vício enquanto se escorar nela. O vínculo desse casal não é o amor, mas a doença que eles têm em comum. Há toda uma dinâmica em torno do vício.

 

ÉPOCA – O mesmo vale para pais e irmãos de viciados, por exemplo?

Parizi – Quando você analisa os casos de dependência, percebe que, além da predisposição genética, existe a disfuncionalidade da família. As duas coisas se somam, mas não dá para saber qual é a causa. Se houver predisposição genética, mas a família for saudável, pode ser que o vício não se desenvolva. Numa família saudável ninguém usa drogas ou abusa de álcool. Também sabemos que o viciado só vai se curar se a família inteira entrar em tratamento. Ou, em outra hipótese, se ele se distanciar emocionalmente da família.

 

ÉPOCA – Sempre existe algum dependente de drogas ou de álcool na vida de um co-dependente?

Parizi – Não necessariamente. Na família de um viciado, todos são co-dependentes, mas nem todo co-dependente tem um viciado na família. Fica mais fácil enxergar a síndrome quando existe o vício, mas o problema é muito mais amplo do que isso.

 

ÉPOCA – E como a co-dependência se manifesta quando não está associada ao vício?

Parizi – Em relações neuróticas de qualquer natureza: entre pais e filhos, marido e mulher, namorados, chefe e subalterno, entre amigos, até mesmo entre um terapeuta e seu paciente. Aquele amigo que todo mundo gosta de consultar quando tem um problema pode ser um co-dependente. Ele adora dar conselhos e sempre começa com a clássica frase “Se eu fosse você...”. Esse conselho não é bom. Ele não é você e o que é bom para ele provavelmente não será bom para você. Ele não está respeitando a sua personalidade nessa conversa, está tentando fazer você agir como ele, transformá-lo. Enfim, são relações de poder que descambam para o controle. O co-dependente joga o foco na outra pessoa, faz muito por ela e pouco por si. Não porque seja altruísta, mas porque se acha onipotente. Controlando a vida de outra pessoa, ele acredita que a dele estará sob controle também. O co-dependente tem muito medo de ficar sozinho, por isso faz tudo para garantir afeto e se sentir indispensável – até mesmo alimentar a fraqueza alheia.

 

ÉPOCA – Como?

Parizi – Há o caso de uma mulher co-dependente, casada com um viciado em cocaína. Toda vez que ele melhorava, ela se desestruturava completamente e a relação entrava em crise. Ela tinha medo de perdê-lo se ele não precisasse mais dela para lutar contra o vício. Uma vez ela se jogou no chão, diante da porta, para impedir que ele saísse de casa.

 

ÉPOCA – Quem é a vítima nesse tipo de história?

Parizi – Existe uma alternância de papéis, um se alimenta do outro, mas o co-dependente sofre desesperadamente. Ele se mede pelo sentimento do outro em relação a ele, como uma criança faz com seus pais. A pessoa se sente incompleta sem o outro, busca no outro o que lhe falta. Há expressões típicas usadas pelos co-dependentes: “Fulano é minha cara-metade”, “Fulana é minha alma gêmea” ou “o ar que eu respiro”.

 

ÉPOCA – E como essa síndrome se desenvolve?

Parizi – O co-dependente vem de uma família disfuncional e sofreu algum tipo de abuso na infância: mensagens controversas emitidas pelos pais, abuso físico e assim por diante. Essas mensagens controversas são aparentemente inocentes, mas fazem grande estrago. São coisas do tipo “estou batendo em você porque o amo”. Dá um nó na cabeça da criança, e ela inconscientemente associa o amor à violência física. A co-dependência também se apresenta em adultos que, quando jovens, presenciaram situações de conflito entre familiares ou eram usados por um dos pais para obter coisas junto ao outro.

 

 

"As crianças crescem recebendo estímulos de co-dependência no dia-a-dia porque nossa sociedade é doente. Exalta casais que se completam e a busca de almas gêmeas, como se ninguém fosse inteiro."

"Pais que brigam na frente dos filhos ou que os usam para atingir um ao outro dão um nó na cabeça deles. Frases como “Estou batendo em você porque o amo” também provocam grande dano a longo prazo."

 

ÉPOCA – O senhor citou vários exemplos com mulheres. A síndrome as atinge mais?

Parizi – A tradição judaico-cristã estimula o altruísmo, o sacrifício e a culpa em todos, independentemente do sexo. Mas nossa cultura exerce uma pressão muito grande para que a mulher assuma papéis que, se extremados, podem levar à co-dependência. Ela é criada para ser mais doadora, mais maternal, e isso a deixa mais suscetível.

 

ÉPOCA – Estamos falando de pessoas que priorizam o outro. Ao mesmo tempo, nossa sociedade é extremamente individualista.

Parizi – Sim, mas prega o eu de forma equivocada, desequilibrada, sem respeito nenhum pelo alheio. “Vale tudo para eu me dar bem, até mesmo passar por cima do outro.”

 

ÉPOCA – Como identificar um co-dependente?

Parizi –  É alguém controlador, exigente consigo mesmo e com os outros, com baixa auto-estima, minucioso, rígido, com dificuldade de perdoar e compreender, muito crítico, mas refratário a críticas.

 

ÉPOCA – São características comuns a muita gente…

Parizi – Sim, crescemos ouvindo e fazendo essas coisas. Todo mundo reconhece esses comportamentos. Mas é preciso avaliar quantos desses sintomas a pessoa tem, em que intensidade e com que frequência. É isso que faz a diferença entre uma pessoa que se preocupa com os outros e um co-dependente. É como o fetichismo, por exemplo. A pessoa pode gostar de uma mulher com determinada peça de roupa, mas não ser necessariamente um fetichista, alguém que só consegue se excitar se a pessoa desejada vestir a peça.

 

"Precisamos mudar nossa atitude e passar a cuidar das nossas emoções, crenças e dos nossos pensamentos da mesma maneira que cuidamos do nosso corpo."

"A recuperação começa quando o co-dependente conquista distanciamento emocional: deixa de falar do outro, volta-se para si mesmo e estabelece limites para não invadir ou ser invadido."

ÉPOCA – Como é feito o tratamento?

Parizi – Psicoterapia, em consultório, e também no grupo Co-dependentes Anônimos. No consultório, tenta-se resgatar a criança que foi ferida na família disfuncional. No grupo, lida-se com a culpa e a vergonha. O co-dependente não é criticado. Ao contrário, vê que há várias pessoas como ele. Assim, não se sente isolado e consegue melhorar sua autoestima.

 

ÉPOCA – Há cura?

Parizi – Sim, porque é uma síndrome emocional, diferente do vício em drogas, em que geralmente há uma dependência física. No entanto, as pessoas só admitem a doença quando a vida fica inadministrável.

 

 

Vicente Parizi é psicólogo, natural de Pirassununga, em São Paulo, formado em psicologia pela FMU, em São Paulo, com especialização em psicologia transpessoal no Grof Transpersonal Training, nos Estados Unidos.