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MEDITAÇÃO CUIDANDO DA CRIANÇA INTERIOR

“Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus.”

 

O Evangelho Segundo o Espiritismo – capítulo VII – item 3

 

 

Na formação do homem novo, temos de fazer renascer a criança que deixamos no tempo... Escutar seus sentimentos.

Todos temos uma “criança interior”, um estado natural de pureza que as vivências milenares no egoísmo soterraram sob os escombros dos desatinos morais.

O Sábio Judeu ensina-nos que o reino da paz pretendido por todos nós depende de recuperarmos essa condição psicológica, que ainda sobrevive em nossa intimidade amordaçada e ferida. Se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus.

Por que teria Jesus colocado um menino em meio aos aprendizes para significar a maioridade? Que valores possuem as crianças que serviram de base para esse ensinamento do Mestre?

A didática aplicada de Jesus é sublime advertência para nós todos que nos matriculamos nas lições do Consolador.

As crianças são fantásticas nas relações por não nutrirem expectativas na convivência, desobrigando-se de cobranças, ofensas, insatisfações e aborrecimentos.

Aceitar os homens como são e respeitar-lhes a caminhada é medida salutar de paz. Aceitar-se como se é sem condenações estéreis e críticas impiedosas é a base de uma vida saudável.

A parcela psíquica de pureza adormecida que trazemos na alma solicita tratamento para manifestar-se em sensações de bem-estar, desprendimento e amor.

Imperioso resgatar essa luz das emoções nobres. São instintos e sabedoria que dormitam na sombra interior. Vamos conhecê-los?

Inspirados no renomado poeta português, Fernando Pessoa, tomaremos emprestada a estrofe de um de seus mais belos poemas intitulado A Criança que Fui Chora na Estrada. Diz o poeta:

 

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

*  *  *

 

Acomode-se da melhor forma. Observe as orientações básicas para meditar: local, silêncio, horário...

Pega uma foto de tua infância. A predileta. Aquela que te lembra dos momentos de alegria. Não possuindo a foto, recorda tua infância. Deixa as lembranças despontarem.

Vamos iniciar nossa viagem.

Estás dentro de um grande teatro. Estás sozinho e assentado. Olhas para a cortina fechada no palco aguardando o espetáculo.

Olha o palco e sinta-te em paz contigo. O espetáculo começa e as imagens da tua infância surgem ininterruptas. Tua primeira escola, as festas de aniversário, os brinquedos prediletos, as histórias contadas pelos avós, as professoras abençoadas, o carinho dos amigos, as diversões.

Pouca luz no ambiente, mas suficiente para te dirigires até o véu que te separa do bastidor. Vá até lá, pois vamos nos preparar para abrir esse véu. Atrás dele encontra-se tua sombra, teu mundo desconhecido.

Prepara-te; ao contar até três, tu vais abrir o véu com coragem. Um, dois... Três! Vá! Abre a cortina serenamente.

Sombra. Luz nenhuma, nenhuma luz. Escuridão. Onde estou meu Deus?!

Para. Acalma-te. Tu estás em ti mesmo, não há por que temer. Tua sombra é a criação de tua história evolutiva. Tem calma. Respira fundo e sente-te seguro. Repete por três vezes: Eu estou seguro! Eu estou bem!

Agora vê! Tudo escuro, mas tu sabes que podes enxergar. Enxergar com os olhos da alma. Escuta as vozes de ti mesmo! Escuta. Ouve por um instante as vozes interiores.

Repentinamente, em meio aos muitos sons, um choro te chama atenção. É um choro de criança. Um choro de medo, baixinho, gostoso de ouvir e ao mesmo tempo preocupante, inspirador de piedade.

Quem será? Não posso ver! Acalma-te! Recompõe-te interiormente e caminha na tua sombra. Tu vais encontrar quem chora.

Segue a intuição, teus instintos!

Lá está! É uma criança. Mentaliza tua criança interior.

Agora chega bem pertinho, mas vai devagar para não assustá-la. Coloca-te intimamente com desejo de acolhimento e bondade.

Olha a criança. Tu mesmo em tempos idos. Pequeno. Gracioso. Entretanto, com medo. Vê como a criança tem medo de ti mesmo. Olhos esbugalhados. Cabelos despenteados. Faltam alguns cuidados à criança. Observa por instante. Sente-a. Evita tocá-la.

Agora, ao contar três, oferece tua mão com o melhor sentimento de teu coração. Prepara-te. Um, dois... Três. Estende a mão. Mãozinha macia, dedinhos curtos. Medo de tocar.

Com muito receio, o pequerrucho aceita.

Agora lhe diz: Vamos caminhar? Venha! Quero-o bem. Muito bem!

A criança que chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser o que sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Olá, minha criança! Vim buscar quem fui, onde ficou. Que bom te reencontrar, pois sei que um dia deixei-te na estrada para ser quem sou. Voltei agora para te buscar. Perdoe-me por te abandonar. Enquanto choravas, eu dormia o sono das conquistas passageiras. Agora estou desperto, vim te buscar.

Não te assustes comigo. Eu não te deixei porque desejava. Não soube como fazer. Agora retorno a te buscar. Te aceito como és, incondicionalmente. Tu não és má porque tem imperfeições. Tu apenas tens imperfeições. Depois de tanto tempo, descobri que não sou capaz de viver sem teu poder.

Quero brincar, pular e ser feliz. Vem ajuda com tua bondade. Ajuda-me com tua criatividade e espontaneidade.

Ah! minha criança de luz, como te amo! Como quero te amar! Que vontade de sentir a tua espontaneidade, tua riqueza.

 

Agora pergunta: queres passear comigo por este mundo de sombras? Ele balança a cabeça como uma criança ridente ao se lhe ofertar uma guloseima.

Faz teu passeio. Conversa com o menino. “Deixai vir a mim as criancinhas, deles é o reino dos céus”... Ouve teus sentimentos.

Agora, cuida de tua criança, arruma-a, porque tu vais levá-la ao palco. Diz a ela que lhe apresentará seu mundo real.

Arruma-a.

Vamos nos preparar para concluir a viagem interior. Ao contar três, tu vais passar de volta pela cortina e levar tua criança ao palco. Quando lá chegar, todas as pessoas da tua vida estarão assentadas nas cadeiras, aguardando para conhecê-la. Tu vais (sem sair do palco) apontar cada pessoa e falar quem é para tua criança. Vamos lá. Um, dois... Três.

Apresenta tua criança ao teu mundo exterior!

Agora vamos saudar tua criança. Todos se levantam naquele palco e batem palmas. Muitas palmas de amor para tua criança.

O menino corre para ti e te abraça emocionado, feliz. Ele reconhece teu amor.

Eu sou pureza! Eu sou luz! Há pureza em meu coração! A vida é presente em mim!

Uma voz altissonante desce do alto: Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus.

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Eu sou confiança! Eu sou pura energia, vitalidade! Meu corpo é abençoado com a energia das células infantis. Minha mente relaxa, meu ser expande-se em glória e sabedoria.

Louvemos na oração a benção desse momento de reencontro.

 

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