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DESLIGAMENTO DE UM SUICIDA

 

Difícil tarefa a que me foi designada entre as tantas que desempenhei desde que fui incumbido de auxiliar os que retorno à espiritualidade.

Encontrei-o, conforme fui orientado, sentado à borda de um penhasco, olhar perdido no horizonte, tristeza profunda na fisionomia sem vivacidade, ombros caídos como se já não suportassem seu próprio peso.

Aproximei-me lentamente, tudo fazendo para não ser notado e por um instante tive vontade de impedi-lo do gesto tresloucado que estava por cometer, porém, cumpridor de minhas tarefas como sempre fui, desisti da ideia e fiquei simplesmente próximo, sentindo sua mágoa, o desânimo que o envolvia, a não mais vontade de permanecer num corpo físico, o remorso a lhe corroer a alma, a dor do abandono envolvendo-o num abraço de solidão.

Era um jovem que mal chegara à idade adulta, apesar do ar abatido podia  ver a beleza de seus traços, os fartos cabelos escuros que lhe chegavam aos ombros;  estava vestido como qualquer jovem de sua faixa etária.

Novamente fiquei tentado a interferir em sua decisão e novamente disciplinadamente desisti e concentrei-me em fazer o melhor para ele.

Ele permaneceu um longo tempo, dentro dos critérios humanos, estático, como se a vida de seu corpo já se houvesse afastado até que, subitamente, ergueu-se e num movimento rápido lançou-se no ar.

Como que desperto de um transe, imediatamente uni-me a ele e acompanhei o instante em que seu corpo apequenou-se e sua alma assustada se prendeu a mim.

Por tal experiência nunca havia passado, pois os suicidas na maioria das vezes, não recebem um apoio com as características que aquele jovem estava a receber.

De imediato fui assistido por mais dois companheiros de tarefa que cuidaram em envolver-nos em eflúvios de serenidade. 

O desligamento definitivo foi instantâneo e seu agora espírito foi sedado para que pudesse voltar à espiritualidade de modo menos doloroso.

Compartilho esta experiência com vocês para que saibam que mesmo as tarefas de ordem estritamente espirituais podem sem delicadas de serem executadas, pois nossa tendência é sempre impedir situações que redundem em sofrimento angustioso àqueles a quem devemos encaminhar em sua Passagem.

Posteriormente quando retornamos ao nosso núcleo, buscamos de imediato o responsável por nossa tarefa e insistimos em receber um esclarecimento maior, pois ainda estávamos sob o impacto do acontecido.

Fomos informados que àquela era uma situação especial, pois ainda que o jovem houvesse, usando de seu livre arbítrio, praticado uma violência contra si e os demais, merecera o nosso apoio em função dos motivos que o levaram a tal ato,  ainda que isto não o eximisse da responsabilidade e do especial aprendizado que precisaria fazer a partir de quando estivesse em condições para tal.

Vejam então os que estiverem por retornar à verdadeira vida que para todos, em qualquer circunstância, existe a misericórdia do Pai a amparar seus filhos.

 

Angelino

 

 

 

 

Recebida pela Magali em 15/07/2011

Revisão: Clovis